quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

Inolvidable

Meu dia hoje foi marcado por uma das cenas mais fortes que jamais presenciei. E olha que já passei por situações criticas em minha curta carreira de repórter, como bandidos com reféns, assassinatos bárbaros e até um suicídio na minha frente. Mas mesmo acostumado a relatar tragédias, me faltam palavras para descrever o que vi nesta tarde. Um menino, quase um bebê, de no máximo dois aninhos de idade, morrendo no meio da rua depois de se engasgar com três balas que acabava de ganhar da sua mãe.

Foi no centro da cidade, por volta das 14h30. Eu estava passando quando vi que começava a formar-se uma aglomeração de pessoas no meio de um quarteirão fechado. Até pensei que fosse promoção em alguma loja, já que estamos em época de queima de estoque por aqui. Mas ao me aproximar vi o desespero de três mulheres sacudindo com força uma criança já inconsciente.

Eram três imigrantes equatorianas que passeavam com os filhos pela rua. A loja onde compraram as balas estava bem em frente de onde o menino se engasgou. Não deve ter passado nem cinco minutos entre a compra dos doces e o fato.

Algumas pessoas tentavam ajudar, uma mulher apertou o garoto, que chegou a vomitar um dos doces, mas nada parecia resolver. Ele não recobrava sua consciência e ficava cada vez mais roxo e mole.

A sensação foi terrível, eu não sabia o que fazer, como ajudar. Chamaram a polícia que estava perto, que por sua vez ligou para o Samu. Não demoraram muito, mas a chegada dos paramédicos não colocou fim àquela angústia.

O garoto foi imediatamente levado para dentro da ambulância, onde estiveram por mais de uma hora tentando reanimá-lo. Do lado de fora, as mulheres se desesperavam e uma deles, provavelmente uma tia, chegou a desmaiar e foi socorrida por outra ambulância.

Pelo que pude entender, fizeram uma traqueotomia no garoto ali mesmo, na ambulância. Em poucos minutos ele estava todo entubado e daí em diante não consegui ver, porque as portas do veículo ficaram fechadas.

Não entendi a razão, mas estiveram quase uma hora e meia ali, sem levá-lo a um hospital. Depois perguntei a uma amiga médica, que também mora aqui na residência universitária, e ela me explicou que pode ser mais perigoso remover o paciente nesta situação do que tentar socorrê-lo no próprio local.

No final, quando a ambulância saiu, não pude perceber se tinham conseguido salvá-lo ou se infelizmente o menino morreu. Queria perguntar, entrar no meio, questionar, mas sem um santo crachá de repórter no pescoço, não adianta muito. Principalmente em se tratando da polícia daqui.

Quase tão triste quanto ao que aconteceu com essa família, foram os comentários que escutei durante o tempo em que estive ali, ao lado da ambulância, esperando que a situação se resolvesse. Não foi apenas de uma boca que ouvi “aahh, são equatorianos”, em um tom bastante pejorativo, depois que a mesma pessoa perguntava o que tinha acontecido. A impressão que dava é que não havia com o que se preocupar, já que eram imigrantes. Cláudia, uma colombiana que estuda comigo, chegou a responder a uma mulher, dizendo o típico “são equatorianos, mas são gente”.

Uma mulher perguntou a mim o que havia passado e quando respondi que uma criança tinha se engasgado com balas ela não demorou em responder: “tanto alvoroço por isso?”. Eu não consegui nem contestar e outra espanhola ao meu lado entrou na conversa, em vão.

Outra senhora passou e comentou que “essas equatorianas ficam vendendo coisas na rua e se esquecem dos filhos”. Deu vontade de bater com a cabeça dela na parede, de verdade. Ela não sabia nem o que se estava passando e me sai com um comentário desses. As mulheres não estavam vendendo nada, foi uma fatalidade. Queria ver se fosse o filho dela, se faria o mesmo comentário.

Bom, depois da aula de xenofobia que tive, continuo aqui, pensando o que terá acontecido com o “nino”. Para minha amiga médica, é difícil que ele tenha se salvado, pelas características que contei, como o tempo gasto tentando reanimá-lo.

Espero que ela esteja errada.

3 comentários:

Claudia Sacristan disse...

Saviano, te felicito escribiste una buena descripción de los hechos acontecidos.
Esta situación me permitió reflexionar sobre varios aspectos:
primero la fragilidad de la vida y mis limitaciones en casos como estos, para actuar (primeros auxilios), así como en elementos más sencillos .. no tener el número de la policia de las ambulancias o en general números de emergencia.
Segundo, que la mayoría de la gente es muy propensa a dar opiniones sin tener en consideración como mínimo los antecedentes de los hechos que se van a críticar los cuales muchas veces ameritan más acciones propositivas que comentarios mal intensionados o descalificadores, como fueron los que se escucharon en ese lugar y hora del incidente.
Tercero me cuestiona como ni siquiera el dolor (el sufrimiento de la familia del bebe y ver a ese bebe agonizando) impide que mucha gente haga comententarios xenofobicos y despiadados ....ante esta situación se espera mas solidaridad y cobijo para esta familia que esta sumida en el dolor. ¿donde esta la empatia?

Vanessa disse...

Nossa Savi(rsrsrs)... imagino como esse acontecimento deve ter abalado vc. Eu, apenas lendo e mesmo tendo vivências parecidas por ser uma profissional da saúde, fiquei super emocionada. Deve ter sido muito triste ver uma criança, com a vida inteira pela frente, morrer ali no colo da mãe.
O que mais me deixa indignada é ver como as pessoas "tratam" os imigrantes. Agem como se eles fossem, ou melhor, como se não fossem nada.
Espero que ensine muitas coisas para os espanhóis. Mostre a eles um pouquinho da cordialidade e da hospitalidade q temos(pelo menos o Ángel me disse q temos neh)...
E esse garotinho com certeza vai ser um anjo ao lado de Deus.
Bjus

Saviano Abreu disse...

Cláudia,
Lo hemos vivido junto y sabes lo que todo eso nos ha significado. Que ese niño estea al lado de Dios, enseñando a esa gente un poco de solidariedad.
Vanvis, a tarefa é dura, mas com certeza tentarei. Isso tem tudo a ver com meus estudos aqui.